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Individualismo e Consciência Material

Individualismo e Consciência Material

Materialismo e Dialética da Presença
por Jayadvaita Das

Primeiro estágio a ser compreendido no processo de elevação da consciência é entender a diferença básica entre corpo e alma. No Bhagavad-gita, encontramos o general do exército que defendia os valores espirituais, Arjuna, em plena crise existencial. As causas foram consequência de sua mentalidade material. Mas, que causas podem trazer ao nível da consciência o transbordamento material?

A diferença entre corpo e alma não seria fato caso não houvesse o processo de identificação do sujeito (observador) com o objeto observado no campo sensorial. A partir do momento em que se observa a combinação dos elementos materiais e se identifica com eles, cria-se um deslocamento da consciência tirando-a do seu centro e lançando-a para a margem de sua presença. Em outras palavras, o sujeito – não apenas como observador, mas como alma espiritual -, desloca-se de sua identidade original, de seu estado conectado consciente para um estado de inebriamento e identificação com a realidade externa. Esta mesma realidade é composta de infinita sequência fenomenal que se transforma e se decompõe no processo de impermanência. Yoga é o equilíbrio que se adquire e se mantém diante desta instável realidade.

Embora não haja delineados extremos entre externo e interno, pois em última análise, tais referências espaciais são forjadas no mesmo campo mental (manomaya kosha), haverá a projeção de dualidade da mente, criando todas as designações temporais e espaciais que frutificarão como desejos de controle e posse dos elementos físicos apresentados diante dos órgãos sensitivos. E foi nesta condição que Arjuna se encontrou antes de desabar sua crise existencial. Então, ele diz que seu individualismo (karpana) o enfraqueceu (dosha) e que por este motivo ele se sente afligido (upahata) pela identificação com a realidade que envolve sua presença, naquele momento. Isto é consciência à margem de sua essência – a causa do transbordamento material (Bg 2.7).

O individualismo é um fato, mas não realidade. Ele apregoa a interação do sujeito espiritual fora de seu centro. Em termos conceituais, o sujeito (kshetra-jña) conhece seu campo de atuação, sua realidade fenomenal que, quando saudável, não faz distinção entre realidade psicológica e físico-fenomenal, pois compreende que tudo faz parte dos mesmos elementos energéticos de composição (que vulgarmente poderíamos chamar de holístico), mas apresentam diferentes funções de acordo com o estado de consciência do sujeito em sua presença (Bg 13.3). Desse modo, o individualismo estabelece a presença do sujeito como observador que observa a realidade de fora, mas se considera como o centro. Tanto a realidade individualista quanto seu centro são sensitivos – eles nascem e morrem nos órgãos sensoriais, sem qualquer fundamento ontológico ou metafísico. Sua presença é apenas sensorial, volúvel e efêmera, assim como a relação estabelecida com os fundamentos de sua realidade superficial; diga-se material. Ou seja, o individualismo é um estado de consciência materialista em que se mantém uma relação de identificação com a matéria em seu estado manifesto e estático, com a superfície transitória da realidade, sem considerar a substância que fundamenta a própria realidade e seu fluxo constante de autotransformação. Logo, nada compõe o campo de ação individualista a não ser o fato em si, mas sem substância, sem essência, pois o objeto individualista está apenas no suposto fora, ao alcance de suas mãos, nas margens de sua presença e longe de seu centro ou essência.

A dialética da presença se faz, então, numa simbiose fenomenológica e metafísica. Na visão da psicologia do yoga, como expresso no Bhagavad-gita (2.12), o mundo fenomenal deve ser observação e compreendido a partir da individualidade (alma) do sujeito e não através de seu individualismo sensorial (sentidos). Instaura-se aqui a dicotomia individualismo e individualidade.
Voltamos ao ponto inicial: diferença entre corpo e alma. Enquanto a consciência individualista se detém nos detalhes transitórios da realidade, e com eles se identifica – ao mesmo tempo em que perde seu foco central, a consciência de individualidade faz com que o sujeito busque estar centrado em sua essência (interior) sem que as margens instáveis da realidade (externa) estabeleçam níveis de identificação. Evidentemente, o sujeito consciente de sua individualidade observa a realidade a partir de seu interior e se preestabelece à percepção sensorial externa, enquanto se posiciona na realidade sem se designar como o centro.

A individualidade do sujeito (ou a presença do sujeito como alma) estabelece a presença integral do ser, que constitui os fundamentos de sua própria existência. Isto inclui todas as dimensões da consciência – desde seu aspecto mais sutil até o mais denso – e desestrutura a concepção da dialética materialista, pois mesmo em termos físicos a matéria é simples energia em vibrações mais densas. A identificação com os aspectos limitados da matéria, que desconsideram a impermanência da composição material dos elementos físicos, é ilusória. Do mesmo modo, o individualismo, o ego e praticamente toda carga de desejos que se multiplicam na matemática destes elementos, são ilusórias. O mais impressionante é que mesmo sendo ilusórios, os valores que emanam desta cadeia são difundidos como reais e essenciais para a vida. Por isto, o materialismo está tão impregnado na vida da sociedade.

A espiritualidade enaltece a dialética da presença pelo simples fato de exigir a presença integral do sujeito em seu ato de observação. Esta é a visão do yogi: ver tudo em sua essência, em contato e sintonia com a causa original – o Ser Supremo. Nada está ao acaso neste mundo fenomenal. Entretanto, ao olhos de um individualista, ou materialista, as ações de um yogi podem parecer ações triviais e semelhantes às ações de alguém em consciência material. O sujeito consciente de sua individualidade essencial atua imerso na energia material (daivi hy esa guna mayi) sem se identificar com a ilusória aparência, pois tem conhecimento sobre a causa original desta energia (Bg 7.14) e compreende o processo de impertinência da mesma, ao passo que o materialista custa a aceitar o fato, ou, quando não, aceita na condição de explorar e manipular os mecanismos da impermanência, para seu próprio prazer e beneficio – o que suporta os valores do individualismo.

Atuar como alma ao mesmo tempo que se faz o uso do corpo material é estar completo e integralmente presente. O materialismo não é completo em si, pois carece de substância. O sujeito não é material, apenas. A matéria é somente um aspecto pequeno do ser, 1/4 de tudo que constitui o sujeito. Além disto, o individualismo não promove paz ou felicidade devido ao fato de ter sua referência limitada ao imediatismo da matéria sensorial, enquanto que a consciência original de individualidade do sujeito pode despertar a natureza da alma – plena de paz e bem aventurança – devido a sua imersão na suabstância primordial de toda existência: purusha, o Ser Supremo.

Sobre Jayadvaita Das

Bhakti-yogi. Professor de Filosofia do Yoga e Profissional do Yoga (YTT 800 horas). Coordenador do Curso de Formação de Instrutor de Yoga - Vaishnava Vedanta Yoga (VVY). Discípulo de Hridayananda Goswami. Palestrante e orientador.

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