O Sagrado Ato no Yoga

Questões fundamentais da filosofia do yoga

por Jayadvaita Das

 

No Bhagavad-gita entendemos que aceitar o karma é agir produtivamente, é transformar karma em dharma, converter um problema reativo em solução ativa. Por exemplo, o sábio indica a Lua, mas o tolo vê apenas a ponta de seu dedo. Bhakti é um processo místico indicado para quem quer se autoconhecer e se autorrealizar e não se entreter com a ponta do dedo. Isto requer levar uma vida equilibrada, pois é importante para se elevar em consciência de Deus; sem disciplina se perde o foco e a direção almejada.

Podemos nos perguntar se, em relação ao tempo histórico, o diálogo do Bhagavad-gita realmente ocorreu? A resposta estará justamente em sua estrutura como obra literária, em sua categoria semântica: o Bhagavad-gita não é um livro universaliza que conduz a tópicos superficiais, isto é, não trata de assuntos parciais que cada um assimilará de acordo com seu bel prazer; isto para quem não quer nada sério em termos de conhecimento metafísico. Hermeneuticamente, não há como compreender o Bhagavad-gita fora do contexto cultural e histórico; por exemplo, quanto ao dever de matar numa guerra. Podemos também pensar se há uma questão divina presente numa batalha mesmo nos dias de hoje. Para isto, teríamos que entender que o dever não pode ser compreendido como algo ético da cultura materialista kantiana, mas do ponto de vista de um dever espiritual ou místico; algo que não recorra às leis da natureza, ao minimalista moral nem ao reducionismo racional. No entanto, devemos entender de modo direto e prático o que vem a ser esta proposta de matar numa batalha enquanto se executa consciência yóguica.

Quando começamos na prática da vida espiritual temos que matar muitos elementos dentro de nós: monstros da ira, fantasmas da inveja, inimigos da loucura, veneno da luxúria. Não apenas uma interpretação metafórica, uma interpretação absoluta do Bhagavad-gita, pois seu ensinamento é constatado também no campo histórico e comprovado arquelogicamente. Sem este fator histórico, Krishna fica apenas como um aspecto subjetivo de Deus, o que não interessa tanto a nós que pretendemos entender e vivenciar o yoga de modo profundo e analítico. Ou seja, a batalha não é uma alegoria.

Isto significa que a teologia presente no aspecto soteriológico do yoga possui um campo único e plural ao mesmo tempo. Único por possibilitar que todas as realizações religiosas, espirituais e metafísicas sejam experimentadas dentro de um monoteísmo; e plural por esta realização ocorrer na individualidade de cada ser, com suas diferenças quase que absolutas. Logo, há sectarismo do divino em relação a tudo que não seja diretamente Ele, e isto seria abarcado como uma face alegórica e não histórica da batalha. Assim, a matança deve ocorrer dentro de nós, sobre tudo o que há de obstáculo a nossa realização do Supremo.

keshava

Quanto mais se desbrava o interior, mais se descobre elementos a serem transformados (na mística simbólica do matar) dentro de nós para que o processo de autoconhecimento ocorre realmente. E tal objetivo não é de se libertar de tais impurezas ou se liberar de sofrimentos (como uma busca incansável, embora infrutífera, de felicidade permanente), mas de intensificar o que há de instrínseco dentro de cada ser, dentro de nós: o amor a Deus sobre todas as coisas. Isto é chamado bhakti ou prema.

A natureza deste mundo de transformações é violência. Tudo está sendo morto e, por exemplo, o fato de você tirar a vida de uma flor para dar prazer a Krishna em vez de mante-la na planta para dar valor aos olhos de muitos que poderiam ver a mesma flor, não é algo muito sensato se entendermos o valor real e a finalidade existencial daquela flor. O ato de cortar uma flor para uma oferenda mística não é perda, nem violência, pois ela cumprirá seu dever como flor, sendo levada (e elevada) ao absoluto em oferenda a Deus.

Não é uma compreensão simples ou sentimentalist, mas mística, metafísica, para além destes olhos finitos que usamos para ver coisas e fenômenos materiais, apenas. A natureza do sacrifício (proatividade) é a fé na relação com Deus. O fato de ter flor para os olhos e prazer da humanidade e o fato de haverem flores para o prazer de Deus, ambos se concretizam no mesmo ato de existirem, mas um ato é espiritualizado, e esta é a diferença. O Bhagavad-gita não aprova o sentimentalismo barato e carnal, que não avança o olhar para o transcendente. Por isto, caímos numa atmosfera de lamentação, de reclamação e de sentimento frustrado por tudo que nos comove sem entender o que está além. Então, devemos refletir na diferença entre sentimentalismo oco e sofrimento existencial.

Nada se faz sem trazer sofrimento a outrem ou a si mesmo, mas este sofrimento não pode ser desnecessário ou gratúito. O ato deve ser criativo e não meramente um ato de violência ou crueldade. Matar por prazer não faz sentido, nunca; e é desaprovado por qualquer mente sã; mas se deve compreender o que é o processo de tirar a vida, se é possível tirar a vida de algum ser vivo.

A cultura de hoje é alienada quanto a matança de animais. Antes do século XVIII não havia matadouros, pois a carne não era comercializada, passou a ser após a revolução industrial e com o desenvolvimento do comércio de gado da Índia pelos Ingleses. Assim, entendendo o que é sofrimento entendemos que nossa cota de violência deve ser minimamente aceita no reino vegetal e não no reino animal.

A dependência de outro é muitas vezes um sacrifício; nem todos gostam de depender de alguém para viver, mas muitos se acomodam na facilidade de depender do conforto moderno da vida, sem perceber que sua dependência passa a ser algo doentil, alienante e até fatal quando deste conforto saciamos a fome a partir do sofrimento de outros seres vivos. Já pensou nisto? Na dependência que estabelecemos no sofrimento e na violência sobre outros seres que satisfarão a insensatez da língua? Então, onde está a violência? Somente no ato de resistir ao errado, ao imoral ou ao mal?

Ninguém quer depender de ninguém, mas poucos se atentam que dependem exageradamente do Estado, por exemplo, e isto não é uma violência contra nossa liberdade, individualidade e vida?

Porém, a dependência tem um lado extremamente necessário e vital que envolve um sacrifício muitas vezes. O ato religioso é um sacrificio sem sofrimento, sem violência. Depender de Deus é um ato sagrado (no sentido metafísico do termo) que invoca nosso sacrifício maior, o qual nos leva à comunhão com o Supremo, comunhão esta que indica união, relacionamento, reciprocidade amorosa, ou seja, yoga.

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