Dedicação ao Supremo

Yoga-sutra Como Ele É

Capítulo 1 Sutras 23 – 28
Dedicação ao Supremo

Nesta sequência de sutras encontramos elementos fundamentais para a compreensão prática do yoga e sua questão substancial: a dedicação a um ente transcendente; pois este é o fator central da prática do yoga numa análise metafísica.

Os sutras desta aula são os seguintes:

1.23] isvara pranidhanad va
“Alcança-se a perfeição dedicando-se ao Supremo.”

1.24] ilesa-karma-vipakasayair aparamristah purusa-visesa isvarah
“O Supremo é distinto de todas as formas, não corruptível, intocável por ações e reações ou condicionamentos sutis.”

1.25] tatra niratisayam sarva-jña-bijam
“Nele está a semente de eterna onisciência.”

1.26] sa purvesam api guru kalenanavacchedat
“Por não ser limitado pelo tempo Ele é a sabedoria de todos os sábios.”

1.27] tasya vacakah pranavah
“Sua fala se expressa na sílaba Om.”

1.28] taj-japas tad-artha-bhavanam
“Entoando-o tem-se revelado seu significado.”

A vitalidade deve ser aplicada no processo de imersão e integração no Supremo, através da dedicação devocional ao Supremo. A prática de yoga, como apresentada por Patañjali não se restringe ao corpo, nem às sensações, mas ao desenvolvimento psicológico em projeção à transcendência. Desse modo, estes sutras revelam o objetivo da prática no plano que não se limita ao campo físico. A realidade percebida na experiência profunda do yoga é metafísica. Por isto, a compreensão destes sutras é fundamental para a realização eficaz do yoga.

A prática deve ser na consciência. Patañjali não se restringe aos conceitos técnicos, mas revela os conceitos de Sankhya (metafísica) à consciência prática do indivíduo. Outro ponto fundamental destes sutras é a confirmação da distinta individualidade de cada ser – ainda que em constante relacionamento com o Ser Supremo – ishvara. Esta individualidade é eterna e jamais desfeita; ademais, é o principal viés da dedicação ao Supremo, pois sem tal individualidade não é possível existir dedicação, executor e beneficiário. Esta é a substância do ato na prática do yoga e da forma de se viver a vida: entregando a vitalidade à fonte de vida.

A falsa concepção que se desenvolve na consciência condicionada pelos modelos e padrões equivocados da natureza material, força-nos a pensar em ishvara como uma pessoa ordinária,  ou falível como qualquer ser humano. Mas, a referência que Patañjali dá ao termo ishvara transcende nossa limitada capacidade de sugestão, pelo fato de se tratar da fonte de toda onisciência: a Suprema Personalidade de Deus. Sim, Patañjali denota e enfatiza o direcionamento da consciência meditativa ao serviço devocional, pela rendição ao Supremo controle. No entanto, este controle não está operando sob uma força aleatória, senão que opera diretamente sob a Vontade do Supremo; logo, a rendição apresentada no sutra 23 indica a tomada de consciência e aceitação da Vontade Suprema em nossas vidas. Sem este movimento consciente que conduz a volição do ser ao encontro da potência vital do Supremo, não há processo real de yoga.

Somente tomado parte da ação no Supremo é que se torna possível ultrapassar os limites impostos pela matéria, e alcançar o conhecimento mais puro, pois a natureza intrínseca de ishvara é conhecimento. Entretanto, não é um conhecimento técnico ou mecânico, e sim, um conhecimento que se revela pela prática, como consequência da aplicação do que se apreende teoricamente e se manifesta como intuição divina ao praticante sincero. Assim, temos que, pela prática da rendição consciente – dotada de conhecimento fidedigno, realiza-se a experiência com o Supremo, o qual, dado a Sua potência mística, Se manifestar mesmo na sonoridade do mantra Om.

Como efeito, podemos experienciar a natureza divina através da ocupação ao Supremo, ocupação esta que se constata internamente a partir do momento em que a rendição se torna um elemento natural na relação interna que travamos com o Supremo.

 

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