A conquista do livre pensar

Por Jayadvaita Das

No verso 46 do capítulo 6 da Bhagavad-gita (1), Krishna enfatiza que a consciência do yogi deve estar numa posição que ultrapasse o mero ato fruitivo e restrito a resultados materiais; que supere as elocubrações empíricas de suposições hipotéticas ideais; e que esteja emponderada por conhecimento prático em vez de fuga ascética da realidade. No entanto, não se coloca aqui apenas uma classificação hierárquica de estilos ou processos de yoga, mas uma meta relevante à forma humana de vida: tornar-se plenamente aquilo que se é. E, apesar do aparente apelo por uma liberdade tola e tão em voga, este tornar-se não é um mecanismo autônomo nem auto-imposto, mas uma conquista gradual e disciplinada que depende de verdadeiro conhecimento.

Em meio à torrencial exigência cultural de “seja você mesmo” muitas pessoas perdem o referencial do que significa tal enunciado. O exemplo mais enfático é o pensar por si próprio como lema original de uma sonhada liberdade. Porém, pensar por si próprio é um contra-senso, pois não há pensamento próprio senão que um acúmulo histórico de pensamentos prévios que remontam a uma causalidade primeira de qualquer pensamento possível. Triste notícia? Não, se você pensar um pouco mais e fora de seu limite de condicionamento. É isto que o verso citado acima nos indica. Ao final do verso Krishna diz: “em todas as circunstâncias, seja um yogi”.

Logo, livre pensar é fazer uso da independência perante a própria existência, mas não de modo inconsequente. Liberdade não é ausência de limites, mas conhecimento sobre tais limites. Pensar não é atividade irrestrita da mente, mas disciplina e convicção.

Os limites são impostos pelo condicionamento mental. Alavancar a consciência para além dos condicionamentos fruitivos, empíricos ou ascéticos é possível a partir do momento em que assumimos a atitude de satisfazer ao Supremo. Paralelo a isto, deve-se reduzir a tentativa frustrada de satisfazer a si mesmo, pois esta é a causa de todo condicionamento que limita a mente e os pensamentos. Focado na própria satisfação, o ser inibe sua capacidade de ser livre e independente, tornando-se atado a uma liberdade ideal e a uma independência fictícia – priva-se do autoconhecimento.

Na verdade, tais características de liberdade e independência são constituintes da essência do ser e podem ser reconquistadas à medida que se desenvolve consciência de si como sujeito/instrumento para a satisfação do Supremo – e não de si mesmo.

Um livre pensador se caracteriza por sua independência diante dos fatores que limitam a existência material de seu corpo e mente; mas, tal independência não é fugaz ou fugidia; esta independência é a raiz de sua liberdade plena, isto é, espiritual (puro, simples e prático). Não há um ideal a se buscar, mas a realidade presente a ser efetivada e realizada pelo ato consciente do ser enquanto sujeito e instrumento divino: um yogi.

A relação de ser um livre pensador com o conceito de ser um yogi está em que este vive plenamente em sintonia com a satisfação do Supremo Absoluto e tal atitude, exercida no centro de sua consciência, faz com que sua liberdade predomine como fator de sua existência enquanto ser espiritual incondicionado. Estando neste estado de consciência, seus pensamentos não serão moldados ou condicionados por fatores transitórios – os mesmos que afetam e determinam as dualidades inerentes à matéria.

Desse modo, o yogi deve exercer sua meditação como um caminho de aperfeiçoamento interior em relação com o Supremo para que gradualmente desenvolva sua natureza intrínseca de liberdade plena, a qual transcende o materialismo, o empirismo e o ascetismo.

Somente com autoconhecimento e conhecendo a causa original dos pensamentos, das ideias, dos desejos e de seu próprio ato volitivo é que pode o indivíduo conquistar seu livre pensar, pois neste processo ele se deparará com a Verdade que reside no centro de sua consciência: o Supremo. Portanto, seja um yogi.

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1
 Bhagavad-gita 6.46

tapasvibhyo ’dhiko yogī jñānibhyo ’pi mato ’dhikaḥ
karmibhyaś cādhiko yogītasmād yogī bhavārjuna

“O yogi é maior do que o asceta, maior do que o empirista e maior do que o trabalhador fruitivo. Portanto, ó Arjuna, em todas as circunstâncias, seja um yogi.”

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