O que é Yoga?

O que realmente importa no Yoga?

A necessidade de conhecer o que se pratica e o que se ensina.

por Jayadvaita Das

 

Recentemente um aluno me perguntou o que é yoga? No primeiro momento fiquei surpreso por notar que um aluno não sabia o significado de yoga. A que ponto eu chegara? um aluno não sabia o que ele praticava comigo?

 

Respondi com outra pergunta: ‘o que você consegue compreender do yoga enquanto pratica?’. Ele respondeu que sentia a existência de um poder nas técnicas e na filosofia que tornavam possível a experiência de equilíbrio, de autonomia e integração. Certamente ele compreendia o que é yoga.

O problema é que muita informação não significa conhecimento. Você pode saber o que percebe durante uma aula de yoga, mesmo que não conheça o Yoga-sutra ou Bhagavad-gita, pois a experiência é real e direta em sua mente. No entanto, quando se busca alguma informação sobre o que é yoga nas redes sociais, na web etc, você encontra mais opiniões do que conhecimento; encontra mais egos midiáticos do que verdadeiros sábios. Este é o ponto do problema em se compreender o que é yoga.

Primeiramente, yoga é o conhecimento que integra filosofia e ciência na prática – sem teorias subjetivas. Este conhecimento une metafísica e o fenômeno de existência física do ser. Por exemplo, todos nós passamos por diversas fases da vida, em diferentes corpos: corpos de bebês, de adolescentes e adultos. Na verdade, o ser individual eterno está dotado de um corpo físico temporário que muda ao longo do tempo.

Qualquer aluno compreenderá este fato: yoga nos leva a compreender a relação da alma com a realidade em que vive. Se vivemos numa realidade de intolerância, discórdia e arrependimento, a compreensão do que somos enquanto alma estará muito distante, ao passo que se vivermos numa realidade de respeito, harmonia e reciprocidade, teremos condições de refletirmos sobre nossa constituição enquanto almas. Porém, em ambos os casos estamos tratando de realidade e não de estado mental, pois independente do estado mental em que nos encontramos, a realidade é a mesma, constituída dos mesmos ingredientes. Algumas linhas evolucionistas modernas da psicologia poderão argumentar que a realidade é moldada pela mente. A psicologia do yoga dirá que a mente molda a realidade psicológica do indivíduo. Surge a questão do que é realidade e do que é mente?

Segundo, para se compreender esta primeira dualidade é necessário ter a orientação de um mestre fidedigno. Não podemos nos contentar com um “digital influencer”, jamais! Cada pessoa dará sua opinião, cada linhagem filosófica dará sua interpretação, cada ideologia criará sua versão e assim por diante. Mas, o que é realidade e mente?

Isto poderá ser entendido se estudarmos com pessoas que realizaram na prática este conhecimento. Quem ainda não realizou, não poderá esclarecer sem que imponha sua própria opinião. Um mestre fidedigno ensinará que a realidade é um fenômeno objetivo enquanto que a mente é um fenômeno subjetivo. Que podemos mudar nossa realidade subjetiva, mas não a realidade objetiva onde todos os demais interagem. Você pode pensar, “mas, as vibrações mentais podem alterar as micro-moléculas subatômicas”, sim, mas a mudança poderá ser notada somente na realidade daqueles que estiverem na mesma vibração – subjetiva.

Desse modo, se eliminarmos todo fanatismo yóguico religioso, todo misticismo barato e toda superstição pseudo-científica veremos que este dualismo (claramente cartesiano) é apenas um duelo entre mente e realidade, onde cada qual luta por provar sua supremacia. Em filosofia isto é chamado de solipsismo. Em yoga, este mesmo conceito é chamado de monismo. Uma visão superficial imaginaria sugere que esta dualidade pode ser resolvida eliminando-se ela, ou anulando toda a possibilidade de existir uma dualidade… ao que nos leva a entender que esta é mais uma visão falsa que se propaga na cultura do yoga.

O terceiro ponto que constitui o que é yoga, é a existência de um ente metafísico que transcende todas as limitações físicas, sejam elas oriundas do preconceito, da ignorância ou da arrogância. Este ente é definido no yoga como Isvara (não teologicamente, Deus). Será este Isvara o elemento que integrará a realidade com a mente. Note bem: integrará e não aniquilará ou fundirá! Isto significa que tanto a realidade quanto a mente são permeadas pelo Ser Supremo (Isvara). Logo, a realidade somente será transformada quando a mente do indivíduo se integra à consciência do Supremo (o sentido mais simples do que é yoga). Seria grande prepotência do ser humano acreditar que poderá mudar o mundo com seu pensamento. O mais trágico é que isto ocorre demais. Charlatanismo que se apropria do arquétipo inocente de seguidores, fieis e discípulos cegos.

Expus estes três pontos do que é yoga para que possamos entender que yoga não é algo tão fácil. Mas, pode ser compreendido de modo mais  simples. Podemos responder de forma mais sucinta que yoga é a reintegração do ser. Com o quê? Com seu corpo, sua mente e com o Supremo. Como? Exercitando (o poder meditativo) a mente em dissecar o fenômeno da existência a nível físico, psicológico e espiritual. Mas, no espiritual tudo é uno? Existe uma unidade absoluta que integra a individualidade dos infinitos seres. Então, basta praticar yoga? Sim, mas yoga sem conhecimento é mera ginástica; yoga presume conhecimento autêntico ensinado por um mestre fidedigno.

O que não pode ocorrer é a ideia de que não é preciso entender yoga para se praticar yoga. Mais sério ainda é pensar em ministrar aulas de yoga sem entender o real significado de yoga. É inadmissível que algum professor diga não saber o que é yoga ou simplesmente subestime a importância de se entender o que é yoga.

Você até pode não saber a epistemologia do yoga, ou não se importar com o entendimento subjetivo do yoga, mas deve saber o significado tradicional do que é yoga. E tradicional não é o que a mídia ou algum professor mainstream definiu; a tradição do yoga é o que preserva o yoga, e o que é preservado pode e deve ser exposto de maneira clara e objetiva. Dizer que yoga não é algo para ser entendido é justificar sua própria ignorância sobre o que é yoga.

Dentro de uma tradição de ensino do conhecimento do yoga é essencial o discípulo saber e compreender o que ele está praticando, o que ele está aprendendo e o que ele está realizando. Sem isto, teríamos mero doutrinamento e não ensino. O aluno deve entender o que é yoga, mas este entendimento será experienciado por ele subjetivamente em sua prática pessoal.

O conhecimento da tradição enfatiza a realização prática do discípulo e considera-se que o mestre instrutor também tenha realizado e compreendido a prática deste conhecimento. Por exemplo, se um médico não entende o que é medicina, evidentemente ele não terá pacientes agendados, pois ninguém se arriscaria em ter uma consulta com um falso médico. Do mesmo modo, sejamos cautelosos com professores que tentam transmitir o conhecimento de maneira subjetiva.

Por outro lado, devemos considerar que o conhecimento profundo do yoga vai se constituir como experiência prática ao longo de anos; não há como considerar que um estudante novato ou mesmo um professor ainda inexperiente possam ter conhecimento de todos os aspectos do yoga. No entanto, ao menos entender o conceito do que é yoga é dever de todos aqueles que se envolvem com a cultura do yoga.

O fato é que a experiência prática do yoga pode nos dar o entendimento do que é yoga, desde que guiada por um instrutor erudito e comprometido com a tradição do yoga.

Então, o que é yoga?

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