A Psicologia Analítica e a Antropologia do Yoga

A relação entre a Psicologia Junguiana e a Antropologia do Yoga

Por Nina Rocha

 

Segundo Carl Jung, o Yoga é a filosofia mais antiga da Índia, a qual serve como objeto de ciência e processo terapêutico. Possui como fator determinante, a conciliação entre fé e ciência – é a mãe da psicologia e da filosofia que são uma mesma coisa na Índia.

 

O Yoga propõe uma filosofia de inaudível profundidade, satisfazendo o campo científico através de uma experiência controlável que, por sua amplitude, integra todos os domínios da vida. Porque “ele trabalha o corporal e o espiritual, unidos um ao outro de maneira raramente superada.” Segundo o autor, a tarefa da Psicologia do futuro será a de estudar as determinantes espirituais dos processos psíquicos. E nos tratados do Yoga encontram-se conteúdos que justificam a pesquisa feita sobre os fenômenos psicológicos desde tempos remotos.

“O Yoga não deve ser de forma alguma subestimado, seja apenas devido à sua antiguidade e o número de seus praticantes. Ela é a mais antiga prática do Oriente e a fundação de tudo que é espiritual, não apenas na Índia mas também na China e no Japão.”

Por ser o homem um ser simbólico, se faz necessário adotar a perspectiva teleológica do ser, como adotada em seus estudos sobre os processos relacionados ao desenvolvimento da personalidade humana. O Yoga visa capacitar o homem a estabelecer uma posição espiritual que se contrapõe à natureza instintiva original, ou seja, uma atitude cultural em face da mera instintividade. Neste sentido, o avanço cultural é psicologicamente uma ampliação da consciência.

“O Yoga estabelece o reconhecimento de Deus como algo óbvio. Seu ensinamento secreto é endereçado apenas àqueles cuja consciência luta por desembaraçar-se das forças selvagens da vida, a fim de aceder à última e indivisível unidade.”

O objetivo prático e imediato do Yoga é superar os kleshas ( ignorância, egoísmo, apego, aversão e medo da morte), tais mecanismos são causados pelo klesha principal, a ignorância (avidya). Estes são mecanismos psíquicos condicionantes que atuam na base do ser humano, limitando o desenvolvimento de sua plenitude.

O sistema do Yoga pode ser considerado a ciência da alma, pois leva à compreensão do ser, de Deus e da relação que há entre ambos; considera que o natural estado do ser é de buscar sua natureza interior, sua relação intrínseca com Ele. O movimento de buscar fora de si o que possa completar o vazio existencial não sana a insatisfação de causa desconhecida; somente após ter tido uma experiência diante d’Ele é que o ser reconhece a presença de Deus dentro de si e em tudo o que vive.

Há uma finalidade na existência humana: o desenvolvimento da relação eterna do ser com Deus. Jung definiu esta relação como “o aspecto de Deus que tende para a consciência e que se revela nesta figura, como se a psique humana e a matéria fossem destinadas a ser o lugar em que Deus pudesse tornar-se consciente de si mesmo.” A importância deste olhar se justifica na experiência que, em seu clímax, pode se tornar uma experiência de Deus.

A revelação ou compreensão do mistério de Deus, mesmo não podendo ser completa (devido aos limites do ser humano), traz transformações profundas na consciência, pois manifesta-se do mais íntimo e legítimo conteúdo do ser, como a “expressão visível de um fato que perdura eternamente, o distanciamento dos condicionamentos temporais e espaciais que separam o espírito humano da visão do eterno”. Para ele o homem não servirá a Deus corretamente se não o servir com beleza.

No Yoga a meta a ser alcançada vai além dos fatores psíquicos, pois apresenta condições para um avanço espiritual. Para o psiquiatra, o processo de desenvolvimento espiritual consiste na ampliação da consciência humana e, para isto, torna-se imprescindível a reeducação e o reconhecimento da própria responsabilidade.

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