Presença e Individualidade

Contra o Relativismo Subjetivista

 

Autocontrole e controle emocional não podem ser entendidos como um mesmo objeto. São funções distintas da consciência. 

Por Jayadvaita Das

Parte 3

Muito se propaga teorias e conceitos que em nada correspondem com os princípios que constituem os objetos a que se referem. Embora seja fato a existência de estruturas funcionais do cérebro e, embora seja primordial o desenvolvimento qualitativo da consciência, é fundamental distinguir entre o que é definição e o que é constituição de um objeto observado – considerando aqui a questão do controle emocional e desenvolvimento da consciência.

 

1º ponto

Emoção não é o que você sente, mas o que representa o que você percebe. O que você percebe não é a realidade, mas uma interpretação da realidade. Então, quem define esta interpretação? Você ou alguém? Quem é este você que interpreta ou define o que é percebido? Quem é este alguém que lhe define no que percebe? Sem entender estas dimensões da consciência não haverá autocontrole, não haverá controle das emoções, não haverá o ‘você’.

Isto é subjetivismo. Você ficar ilhado em seu mundo emocional, perceptivo e intencional. Aparente liberdade, mas apenas uma imaginação do que é a liberdade. Este subjetivismo domina sua capacidade crítica e discriminadora da realidade x ilusão. Ao aceitar somente o que lhe agrada e rejeitar tudo o que possa lhe confrontar, estará ilhado em sua concepção de realidade solipsista, isto é, somente é real o que você percebe e como você interpreta o que é percebido, ou como representa para você suas próprias emoções. 

A emoção não é o problema, mas como esta emoção controla suas decisões e entendimento da realidade, é o verdadeiro problema.

 

2º ponto

Ao delimitar sua realidade ao plano subjetivo, todas as instâncias reais tais como valores, princípios, ética, moralidade, sagrado e propósitos se tornam relativos. Neste caso, desenvolvimento qualitativo da consciência é incompatível com o relativismo. Por exemplo, alguém que apregoa o aborto e ao mesmo tempo defende a proteção aos animais estará relativizando um objeto em comum: a Vida. 

Esta contradição lógica não estrutura coerentemente o cérebro e se baseia na base cognitiva primitiva, ou seja, o relativismo da realidade torna a ação humana limitada ao entendimento limítrofe de seu subjetivismo humanitário relativista, o que envolve aspectos de uma freqüência vibracional qualitativamente grosseira, animalesca – possibilitando a atitude totalitarista, extremista e materialista – qualidades que não compõem qualidades espirituais da consciência.

Um nível de consciência inferior não é o problema, mas o relativismo originado deste baixo nível de consciência é o problema.

Vejamos. Um objeto cadeira é em si o mesmo objeto percebido por dois indivíduos; a interpretação de cada um dará à cadeira um sentido distinto (mas em nada mudará o objeto!), por exemplo, se em um ambiente como o metrô temos um acento disponível (objeto para se sentar correspondente à cadeira), poderá um deles se sentar e não dispor deste acento para que um idoso ou gestante se sente; ao passo que para a interpretação do outro, aquele acento não será para ele, mas para que o idoso ou gestante se sente. Note que pouco importa o referencial (gestante, idoso etc), mas a interpretação dada ao objeto que não se reduz ao acento, mas a todo o espaço real presente ali. 

Neste singelo exemplo podemos reconhecer no primeiro sujeito a presença de relativismo e subjetivismo capaz de ignorar a realidade do outro. No segundo sujeito, vemos uma consciência (realmente) sensível ao ambiente e demais indivíduos, ou seja, não há um explicito ato de egoísmo individualista deste segundo sujeito.

Ora, é um mero exemplo que tentamos para ilustrar, porém, os detalhes estão presentes em nossa consciência a cada instante. Basta observarmos o que se passa em nossa mente ou campo perceptivo. No entanto, cabe diferenciar, a partir do que dissemos até agora, percepção e observação ou, intenção e consciência.

O que se percebe existe, mas não é real, pois está presente apenas aos sentidos de percepção. O que se observa existe, é real por estar presente na percepção e está presente por ser um objeto consciente, não em si, mas na consciência do individuo que o observa. 

Em outras palavras, a partir do que percebemos não temos a realidade constatada, mas uma sensação emotiva onde opera nossas intenções; porém, a intenção sem entendimento ou observação a partir da consciência (o que implica numa consciência do princípio constituinte do objeto, da percepção e da observação) não nos dá a capacidade de agir consciente do ato proposital, isto é, agir por impulso, agir por motivações externas, agir sem consciência ou caráter.

De outro modo, quando se observa o mesmo objeto sem se limitar a percepção do objeto, trazemos o objeto para a dualidade entre o individuo que observa e o objeto observado. Nesta auteridade constituinte de dois objetos (o observador e o objeto observado) se estabelece a reciprocidade não relativista, mas realista, e uma compreensão não subjetivista, mas metafísica.

Em resumo, o que ocorre é uma profunda crise metafísica ou espiritual do ser humano. Deste modo, entender o yoga como uma ciência da consciência é aplicar este conhecimento para o desenvolvimento qualitativo da consciência, ao ponto de aproximar os dois principais objetos existenciais: o ser infinitesimal eterno e o ser Supremo Absoluto. 

Assim, antes de qualquer desenvolvimento de controle das emoções é necessário desenvolver o autocontrole, pois a partir dele se torna possível a superação da observação relativista e a transcendência da percepção subjetivista. 

Naturalmente este tema não se esgota nestas poucas e complexas palavras, por envolver conceitos filosóficos mais profundos da consciência do ato e da potência, isto é, presença e individualidade. Mas, será o conteúdo de próximos artigos.

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Leia o artigo 1.

Leia o artigo 2.

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Para ler sobre o tema:

  1. A Refutation Of Moral Relativism;
  2. Ciência Estética Metafísica;
  3. Beyond Biocentrism: Rethinking Time, Space, Consciousness, and the Illusion of Death.

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